Depois de perder alguns quilos nas privadas indianas, visitar uma porcao de templos e lugares sagrados; doar dinheiro, fazer oracoes, oblacoes e caminhadas silenciosas; participar de rituais, aratis e satsangas; entrar no Ganges tres vezes, parar no hospital e queimar algum karma, acho que estou com credito no astral.
Entao nada melhor que pegar um aviao ate o Reino Unido e ir pecar um pouco com Steve, o ingles charmoso que viajou comigo no trem em direcao a Varanasi.
Embarco amanha de manha e sinto borboletas no estomago.
Foi meio estranho chegar em Paris depois de passar esse tempo todo la na India. Aqui as pessoas mal se olham na rua mas na verdade isso nao importa porque vim mesmo para ver a Debby.
Gostaria de passar mais tempo em sua companhia. Como isso nao eh possivel pois ela esta trabalhando muito, soh me resta aproveitar ao maximo cada minuto que temos juntas.
O clima esta muito agradavel, ensolarado mas bem fresquinho pra mim que estava acostumada com temperaturas apocalipticas. Hoje vou novamente almocar com Debby e depois passear em montmartre - sugestao dela.
Assisti agora pouco no avião um filme chamado "Ganes", de 2007, sobre uma banda de rock finlandesa da década de 70. O som não é muito diferente do rock que se fazia na época mas mesmo assim achei bem bom e gostei da história deles. Bando de ciganos escandinavos malucos!
(Clica ali no título do post)
Dentro de quatro horas pego outro avião em direção a Paris. Por enquanto vou ficar por aqui navegando na internet super rápida e gratuita do aeroporto de Helsinki. Diliça!

Pirei o cabeção com o calor em Delhi e fiz mais duas tatuagens de henna. Uma no braço direito e outra na perna direita. Não sei se faria definitiva mas essas realmente gosto e acho que elas poderiam durar 6 meses. Poderia entender de química e inventar uma henna com permanência prolongada.
Claro que sair de la não seria algo tranquilo - o taxi chegou atrasado e o motorista ainda pediu pra parar no meio do caminho - preparou o café da manhã de sua amiga vaca - e outros bichinhos. Só na India mesmo.
Nao sei direito o que estou sentindo agora. Eh um certo alivio sair deste calor infernal e saber que dentro de algumas horas estarei em Paris revendo Debby e Mederic. Que vou poder comer tranquilamente qualquer coisa e beber agua da torneira. Ao mesmo tempo eh tao dificil ir embora.
Nao arrastei o peh do 'main bazar' desde que cheguei em Delhi, nao vi o Red Fort ou qualquer outro monumento, nao fui a museus nem ao centro Sivananda praticar Yoga. Faz muito calor mesmo e sinto que cheguei ao meu limite fisico e psicologico, por isso passei a maior parte do tempo praticamente pelada em baixo de um ventilador. E falo em limite porque de fato eh quase impossivel sair na rua e nao captar algo novo, estranho e diferente. Desde pessoas te chamando para tomar chai, ou conhecer uma loja, perguntando de onde voce eh e ha quanto tempo esta aqui. Criancas brincando, trabalhando ou catando lixo; vacas cagando no meio da rua (olha a merda aqui de novo), buzina de auto rickshaw, musica pop, mantras milenares. Cheiro de comida, incenso e fumaca de diesel. Turistas drogados, casais passeando, caes preguicosos. Alguem que te estende a mao sorrindo e alguem tentando te enganar e fazer mais dinheiro. Idosos maltrapilhos, estudantes de tecnologia - enfim, eh um banquete para os sentidos!
E neste exato momento eh como se tivesse acabado de fazer uma grande refeicao em um buffet livre com direito a sobremesa e nao ha espaco para nem mais um cafezinho. Sentirei saudades deste lugar que foi a minha morada durante quase dois meses (menos uma doce semana que passei no Nepal).
Se voce, caro leitor ou cara leitora, gosta de aventura e nao tem medo de ser revirado do avesso e chacoalhado de cabeca para baixo, venha para a India! Essa grande Mae com certeza vai te acolher com imensos e multiplos bracos abertos. E de quebra voce nao vai sair o mesmo daqui, definitivamente.
Acho que nunca pensei tanto em Deus e em merda como nestes ultimos dois meses aqui na India. O que me motivou a fazer essa viagem foi principalmente o Yoga e a peregrinacao a locais sagrados - o resto foi acontecendo por consequencia.
Primeiro tive que acostumar com a merda de vaca pelas ruas, o cheiro de merda, a cinza feita com merda que os sadhus passam no corpo.
Depois vieram as latrinas indianas - que sao vasos sanitarios embutidos no chao e o contato com a merda (feito pela mao esquerda). Apesar de continuar usando papel higienico procuro cumprimentar as pessoas, comer e fazer tudo com a mao direita, pra entrar no clima e porque afinal sou destra.
Em seguida foi a minha propria merda - com a diarreia, ameba, caganeiras repentinas. O menor sinal de mudanca na consistencia, coloracao e cheiro ja me da verdadeiro pavor. Ainda bem que nao joguei fora os remedios e sais que sobraram.
Nao sei se eh por causa do calor seco e apocaliptico de 43 graus que voltei a sentir dor de barriga. Estou cuidando muito da alimentacao, voltei a escovar os dentes com agua mineral, desinfetar bem as maos e beber muito liquido.
...
Antes de fazer as refeicoes costumo entoar mentalmente uma prece - eh uma passagem do Bhagavad Gita - aprendi com o Gopala no centro de Yoga e nunca mais esqueci. Dedico o alimento a Krisna sempre antes de comer - sera que ele tambem tem passado mal com piriri la nos reinos celestiais?
Isso tudo me faz lembrar de um trecho de "A insustentavel leveza do ser" - um dos livros que trouxe comigo na mochila:
"Quando era garoto e folheava o Velho Testamento para criancas, ilustrado com gravuras de Gustave Dore, via nele o Bom Deus em cima de uma nuvem. Era um velho senhor, tinha olhos, nariz, uma barba comprida e eu dizia comigo mesmo que, como ele tinha boca, devia comer. E se comia, devia ter tambem intestinos. Mas essa ideia logo me assustava, porque apesar de pertencer a uma familia pouco catolica, eu sentia que a ideia dos intestinos de Deus era sacrilega.
Sem o menor preparo teologico, espontaneamente a crianca que eu era entao ja compreendia, portanto, que existe incompatibilidade entre a merda e Deus e, consequentemente, percebia a fragilidade da tese fundamental da antropologia crista segundo a qual o homem foi criado a imagem de Deus. Das duas uma: ou o homem foi criado a imagem de Deus e entao Deus tem intestinos, ou Deus nao tem intestinos e o homem nao se parece com ele.
Os antigos gnosticos sentiam isso tao claramente quanto eu aos cinco anos. Para resolver esse maldito problema, Valentim, grao-mestre da gnose do seculo II, afirmava que Jesus 'comia, bebia, mas absolutamente nao defecava.'"